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        Despejei toda a tinta preta em uma bacia grande, eu tinha comprado umas três latas, o suficiente pra deixar o bicho afogado lá dentro. Aquele maldita calopsita, porcaria ridícula e barulhenta. Pagou uma fortuna naquele bicho insuportável que ficava me acordando no meio da noite. Me xingava e me jogava na cara que era ela que pagava as contas ali toda vez que eu ia reclamar daquele animal de satanás.
        O bicho, que ela chamava de Horácio, estava empoleirado no falso galho dentro de sua gaiola, com a cabeça virada pro meu lado como se me observasse, foi o maior período de silêncio que ele fez enquanto viveu comigo, talvez sentisse o que o esperava. Cutucou as penas brancas com o bico e virou os olhos pra mim outra vez.

        — Sim seu desgraçado, você vai adorar isso. — terminei com as tintas e coloquei as luvas, daquelas amarelas de limpeza, não queria tomar nenhuma bicada do infeliz. Também não queria mata-lo antes de lhe banhar em tinta preta. Sim, queria que ele se sentisse um corvo um pouco antes de morrer.
        — Ela vai adorar isso, eu deveria era assar você, mas deve ter um gosto azedo dos diabos. — falei pro Horácio, que começou a se remexer na gaiola.

        Abri a tampa da gaiola e enfiei a mão lá dentro de uma vez, Horácio não teve chance, agarrei o bicho em cheio enquanto ele grunhia e se esperneava. Enfiei o maldito pássaro direto na bacia de tinta, deixei ele se afogando lá um pouquinho até sentir ele parar de se debater. Tirei o bicho lá de dentro, assumindo que ele já tinha passado dessa pra melhor e chequei a coloração.
        Lindo, Horácio agora era um corvo, um corvo silencioso como nunca. Um corvo que ainda se remexeu entre meus dedos, até ter o pescoço torcido com um puxão. Um corvo morto.
        Eu ainda tinha duas horas antes de Gabriela chegar, resolvi preparar bem o lugar, ela ia gostar de um clima legal. Deixei pequenas velas da porta até o quarto, indicando um caminho. O quarto tinha sido limpo e esvaziado de todos seus moveis, a não ser uma mesa e uma cadeira. Em cima da mesa, Horácio jazia em uma bandeja prateada que comprei especialmente pra essa situação, daquelas dos filmes mesmo, uma belezura. Todo preto e duro, calado como nunca. Pobre Horácio.
        Preparei meus instrumentos com cuidado, deixei todos na cozinha, pra não assustar Gabi já de cara. Dei uma última olhada nas fotos dela com o loiro de franjinha que ela andava saindo. Torrei quase quatro mil reais em um detetive pra ter essas fotos.
        Chequei o quarto de hospedes mais uma vez, estava tudo em ordem. O banheiro ficava logo do lado da porta de nosso quarto, onde Horácio descansava todo tatuado. De forma que eu estaria logo atrás dela antes de ela poder dizer “Filho da puta!”. Entrei no banheiro, apaguei as luzes, deixei a porta entreaberta, me sentei na privada e esperei. Esperei sentindo o gosto salgado da pele de Gabi na língua, esperei abrindo um buraco nos sapatos com os dedos inquietos. Esperei sentindo os dentes doerem a cada rangida.
        Esperei até ouvir a chave destrancando a porta. Até o primeiro passo de Gabi pra dentro de casa. Então era hora e eu era só mais uma sombra no banheiro, só ouvidos.

        — Mas o que...— falou, entre passos lentos. Pude ver sua sombra se esparramando na parede do corredor.
        — Rodolfo? — falou, passando reto pelo banheiro  e rangendo a maçaneta do quarto.

        Senti um sorriso escapando em meu rosto, de orelha a orelha quando ouvi ela abrir a porta. Era hora de levantar. Me levei a porta no mesmo momento em que os dedos de Gabi fizeram tinir a prata. Ela gritou.
        Gritou e gritou mais, até meu cinto se enrolar em seu pescoço e apertar, sufocando um grito morto em sua garganta, rangendo as paredes de seu pulmão. Gabi era uma morena miúda que não pesava nem 60 quilos, apagou em alguns segundos, ficando roxa como uma beterraba.

        E agora era hora do show.
        Levei todos meus brinquedos pro quarto e os despejei sobre a mesa, me arranjei mais uma cadeira e sentei na outra ponta da mesa, de frente pra Gabi, com a porta fechada as minhas costas. Ela levou um bom tempo pra acordar, até chequei seu pulso, com medo de ter me empolgado demais. Brinquei com os reflexos das lâminas enquanto esperava aqueles olhos esverdeados se abrirem.  E como se abriram.
        Gabi acordou com uma mecha castanha caindo pela testa e com saliva escorrendo pelo queixo, fiquei quieto como uma pedra, esperando ela tomar consciência do que estava acontecendo. Gabi franzia a sobrancelha e deu um grito rouco abafado pela mordaça em sua boca. Remexeu e forçou os braços e pernas só pra descobrir que estava amarrada dos pés a cabeça. Eu sorri e esperei ela terminar de rugir palavrões engasgados.

        — Pronto? — falei, quando ela se acalmou.
        — Gurrummtuu gum — resmungou.
        — É melhor você não falar, o cinto apertou bem forte esse seu pescocinho, querida.

        Gabi lançou um olhar pro estojo de facas aberto na mesa e franziu as sobrancelhas outra vez, tenho certeza que ficou surpresa com a variedade de lâminas, tomei seus grunhidos como um elogio.

        — Vamos fazer um trato. — falei, e Gabi me levantou o olhar. — eu vou tirar essa sua mordaça, mas eu quero que você preste bem atenção.

        Gabi se remexeu um pouco na cadeira franzindo aquelas malditas sobrancelhas outra vez, como eu detestava aquilo, queria arrancar aquelas sobrancelhas naquele momento. Peguei seu rosto pelas bochechas com uma mão e apertei, Gabi soltou um choramingo e colou os olhos verdes em mim.

        — Preste atenção, você só deve falar quando eu mandar. Se dizer uma palavra fora de hora, Gabi... — puxei uma faca pequena, com a ponta um pouco curva pra fora de dentro do estojo aberto e a coloquei bem em frente aqueles olhos lacrimejantes. — eu vou usar essa faca pra arrancar sua língua. Estamos entendidos? Acene com a porra da cabeça.

        Gabi acenou, quieta como Horácio, que agora descansava dentro da lixeira da cozinha. Tirei sua mordaça e esperei com cuidado ela testar os músculos do maxilar  ainda sem fazer um som se quer. Me olhou com a fronte fechada e os lábios colados.

        — A quanto tempo você anda fodendo aquele pintor? — perguntei.
        Gabi esbugalhou os olhos de tal forma que eu tive de sorrir, estava surpresa. Acenou negativamente com a cabeça, com os olhos dançando trêmulos pelo meu rosto.
        — Eu vou repetir e você deve me responder. — falei — a quanto tempo você anda fodendo aquele pintorzinho fodido?
        — Eu não...— começou
        — Se você mentir pra mim, vou pendurar seu escalpo na vitrine de uma das lojas de sua mãe.
        Gabi deixou a boca se torcer e segurou um ataque de ânsia, boa garota, seria imperdoável que ela vomitasse nesse momento.
        — A um ano. — falou.

        Me deixei cair na cadeira, eu sabia do envolvimento, mas não tinha ideia de que era tão longo assim. O detetive me deu as fotos e disse que daria uma estimativa de 6 a 7 meses que os fodidos andavam se fodendo. Palavras dele mesmo. Mas um ano, era tempo demais, um ano inteiro, Gabi merecia muito mais do que meu espetáculo noturno a tinha pra oferecer no momento. Mas o show não pode parar, eu também sou um artista.

        — Você gostava dos quadros dele? — perguntei.
        — De alguns, sim. — me respondeu, engolindo em seco, sem tirar os olhos de mim.
        Cruzei as pernas e puxei uma faca longa e pontiaguda de dentro do estojo de couro.
        — Ele te fodia bem? — perguntei, usando a ponta da faca pra tirar um pouco de sujeira das unhas, estavam compridas demais, andei muito ocupado com os preparativos.
        — Sim — me respondeu, seca.
        — Melhor que eu? — falei, congelando meus olhos no verde morto dos olhos de Gabi.
        — Sim —Gabi falou, travando o maxilar.

        Me levantei e guardei a faca no estojo, respirei fundo e passei os olhos sobre a pele bronzeada de Gabi, era uma mulher muito bonita com as maçãs do rosto altas e os lábios vermelhos, me pergunto como seria sua aparencia quando começasse a apodrecer, era uma pena que eu não teria tempo de assistir isso.

        — Eu tenho um presente pra você, além do Horácio, é claro. — falei.
        Gabi engoliu o ar de boca aberta como se o cadáver de Horácio ainda estivesse sobre a mesa.
        — Você já esqueceu do Horácio? Isso é o que eu chamo de amor, Gabi. — falei entre um sorriso. Fez menção de dizer mais uma coisa mas eu a calei logo em seguida.
        — Shshshsh... você sabe as regras. — ameacei.

        Gabi se calou e baixou os olhos pro chão. Abri a porta e fui em direção ao quarto de hóspedes. Eu não pude esvaziar o quarto de hospedes mas gosto de pensar que criei um lugar confortável pro meu amigo pintor descansar. O homem estava atirado ao canto do quarto, com os cotos sangrentos enfaixados no lugar onde um dia teve mãos, uma pequena brincadeira que tivemos a sós um pouco mais cedo. Cuidei pro homem não morrer antes de ver Gabi na outra sala, chutei suas costelas e ele acordou assustado, drogado demais pra falar alguma coisa coerente.

        — Muuunhhgggg — choramingou com os cotos pra cima.
        — É hora de ver nossa amiga, pintor.

        Arrastei o homem mutilado pela cozinha até chegar ao corredor. Eu tinha deixado a porta aberta pra Gabi poder ver nos ver pelo corredor. O homem gemia e choramingava, tentava se espernear mas não conseguia, eu tinha caprichado nas drogas, não queria um amigo querido sentindo dor. Gabi gritou e começou a chorar quando viu o homem se arrastar, com meu braço em seu pescoço pelo corredor. Deixando um rastro de sangue pelo caminho, uma bagunça.

        — SEU DESGRAÇADO! — Gabi gritava.
        Eu só podia sorrir, deixar aquele sorriso de orelha a orelha se instalar a cada passo em direção aos gritos de Gabi.
        — FILHO DA PUTA! VOCÊ MATOU ELE, MATOU ELE — berrava sem parar.

        Larguei o pintor mutilado bem ao lado da cadeira de Gabi. Peguei a faca de ponta curva de dentro do estojo e lhe meti por dentro da boca, tirei um comprido pedaço rosado de carne de dentro de sua boca e o joguei ao lado do verme quase-morto.
        Gabi grunhiu e se esperneou, com sangue esguichando pra todo quanto é lado, lançando pingos nas paredes azuladas do quarto quando girava a cabeça em agonia.
        Chutei sua cadeira e ela caiu do lado do verme mutilado. Que tenham uma morte romântica.

        — Lembra que você adorava aqueles filmes de assassinos, Gabi? — falei, rodeando pra trás do pintor que se afogava na própria baba, com a cara colada no chão e os cotos fazendo manchas vermelhas no carpete claro. — talvez façam um sobre isso.

        Puxei a cabeça do pintor pelos cabelos e lhe abri a garganta, tão fácil como cortar um pão macio. O pintor cobriu o rosto de Gabi com seu sangue e parou de se engasgar e se remexer alguns segundos depois, ninguém pode dizer que não sou misericordioso.
        Gabi gritava e jorrava sangue pela boca, tenho certeza de ter visto ela vomitar um pouco entre lagrimas enquanto eu rodeava pra traz dela, com a faca pingando gotinhas de sangue no chão.
        Abri a garganta de Gabi de orelha a orelha. Assim como meu sorriso.
        Descansei a lâmina na mesa e assisti o sangue cobrir o chão do quarto em vermelho vivo. Eu ainda tinha trabalho a fazer, dois galões de gasolina me esperavam na cozinha. Testei a sonoridade de alguns nomes enquanto caminhava em direção a gasolina.

        — Arthur. — parece bom.

        Arthur vai esperar pacientemente, ainda nos vemos no inferno, querida.



Fui visitar Samara na prisão. Recebi uma carta com o novo perfume de concreto dela. Me pedia uma visita e fazia uma clara e sublinhada observação pra trazer um bolo de chocolate, dos grandes.
Peguei um bolo — me certifiquei do tamanho — na padaria perto de casa e comecei a jornada até a prisão estadual. Levei  40 minutos de carro e me perdi duas vezes até avistar as grades e torres. Eu sempre fui uma merda no volante, dirigia como uma velha e me apavorava cada vez que algum desgraçado chegava muito perto do meu carro, se minha vida depender de uma fuga de carro, eu sento e choro.
Fui revistado de centenas de formas diferentes, me passaram em máquinas, me cutucaram e apalparam com espelhos pra todos os lados (não vou entrar em detalhes, experiencia horrorosa.)
Me levaram o bolo — dizendo que Sam ainda não tinha direitos de ficar do lado de fora na sala de visitas, ficava atrás do vidro — mas prometeram de todo o coração que o bolo seria entregue, o animal ainda sorriu pra mim ao terminar o discurso, sorri de volta e entrei sabendo que Sam nunca veria aquele bolo.
Ela estava bem na minha frente, atrás do vidro, telefone no ouvido e esperando eu fazer o mesmo. Me demorei um pouco em pé, observando a meia duzia de pessoas que tinha conversas aos sussurros através dos vidros.
Sam bateu com o telefone no vidro e eu voltei a terra. Me convidou a sentar com um gesto enquanto brandia um dedo médio, impaciente.

— Cadê meu bolo? — a primeira coisa que falou.
— Os guardas ficaram com ele — falei, apontando com o dedão atrás das costas. — Porque é que todo mundo aqui fala sussurrando?  — sussurrei também.
— Malditos, preciso desse bolo, se eu tiver que comer essa lavagem que servem aqui hoje a noite, me afogo na privada pela manhã. — disse, passando uma mão nervosa sobre o rosto.
— Não seja dramática, deve ser bem melhor do que o veneno que você faz no fogão — Isso era verdade, não tinha como ela negar.
— Eles conseguem Jaime, é uma coisa horrorosa. — disse, por um segundo me soou genuinamente triste.
Troquei o telefone de ouvido e senti a garganta seca.
— Ok Sammi, você não me tirou de casa só pra te trazer um bolo, não é? Que porra tá acontecendo ai dentro?

Samara tinha sido pega pela policia rodoviária com dez quilos de cocaína no carro, havia sido descuidada. Perdi uma querida funcionaria esse dia e sete ou oito quilos de farinha. Uma velha formula mágica, digamos assim.

— Estou bem ferrada, Jaime. — disse, cutucando o nariz e varrendo seu lado do vidro com os olhos castanhos.
— Você sempre me diz isso Sam, nunca é tão ruim quanto parece — falei, apoiando a cabeça na mão que segurava o telefone.
— Dessa vez é diferente cara, as coisas realmente estão ficando tenebrosas pro meu lado — passou a mão sobre os cabelos — estou em evidência aqui.
— Que merda está acontecendo ai dentro afinal? — falei, perdendo a paciência, Sam não era de enrolar.
Fui respondido com um buzzzzz estridente e o ranger de metal da pesada porta de ferro do outro lado do vidro se abrindo.
De dentro da porta de metal, se arrastou uma sombra imensa pra dentro da sala, arrastando correntes presas as mãos em um barulho infernal. Direto da penitenciaria feminina de Montenegro, aquilo era a maior criatura que eu já vira em toda a vida, sóbrio ou não.
A mulher (ou fêmea, se preferir.) era uma massa de três gigantescos andares, moles como massa de pão. Os braços eram grossos como alguns barris de vinho que meu avô guardava na adega de sua casa, por baixo do chão. A barriga parecia explodir pra fora de cada canto do uniforme. Não havia alguma coisa que se pudesse chamar de pescoço ali, era só a cabeça.
Aquela cabeça que me fazia ranger os dentes a ponto de transforma-los em pó, eu quase podia escuta-los se desfazendo na minha boca. Aqueles olhos negros de crocodilo, apertados entre o que eu não sabia definir entre rugas ou gordura. Aquele olhar varreu a sala em meio segundo, remexeu bundas em seus assentos, trocou telefones de orelhas e empalideceu alguns rostos.
Sam permaneceu com os olhos fixos em mim o tempo todo, apesar de ter se remexido o suficiente pra eu saber que ela também estava vendo aquela coisa. Parecia realmente decidida em não olhar pra criatura que agora ia em direção as pobres e frágeis cadeiras inocentes que estavam perto do vidro, escolheu uma pra si com cuidado e fez um sinal com as mãos, enxotando as duas guardas que a acompanhavam: Uma baixinha que carregava uma escopeta e parecia em muito com a atual presidenta e uma loira de cabelos curtos com uma bela verruga no meio da testa, fiquei mais intrigado com a verruga do que com a pistola que ela trazia em mãos.
Senti os dedos do pé quase furando o sapato e ouvi Sam engasgar com a própria saliva — de leve –
A gigante branca olhou direto pra Sam, que — ainda engasgada — atingiu 50 tons de branco em um único segundo sob a pressão cheia de colesterol daqueles olhos. Duas minusculas bolas de gude azuladas, cravadas no meio de uma carranca que me arrancava o ar dos pulmões.

— Mas que porra é essa? — perguntei, sem conseguir tirar os olhos do pequeno planeta que agora sentava na frágil cadeirinha azulada da prisão. Explodindo aquela bunda gigantesca pra todos os lados do assento, vi as pernas da cadeirinha premiada vacilarem e as minhas seguiram o ritmo.
— Isso — nunca tinha visto Sam tão pálida e com olhos tão apavorados. — é a porcaria do problema.
— É um problema bem nutrido. — falei.

Passou as mãos pelos cabelos e pareceu recuperar um pouco da cor, tentei não olhar pra monstruosidade a alguns metros de mim apesar de sentir meus olhos se virando contra minha vontade em alguns momentos. Sam não tirava os olhos de mim, aqueles olhos castanhos chorosos.

— Em qualquer outra situação eu ia adorar essas suas piadinhas Jaime, mas a coisa tá feia pra mim aqui. — limpou o suor da testa com uma das mãos e lançou um olho em direção a criatura — preciso beber.
— Calma Samara, para com essa tremedeira mulher, é só uma gorda molenga, aposto que se você abrir uns furos ali naquela barriga, ela sai voando pelo salão igual uma bexiga furada.
— Eles a chamam de Moby Dick aqui — disse, com voz chorosa.
— É um bom apelido — não aguentei segurar um sorriso.
Sam torceu a boca numa carranca e fiquei feliz de ter um vidro bem grosso entre nós dois
— Você precisava ver o que ela faz com as meninas Jaime — engoliu em seco — Por Deus... — a voz lhe falhou quando Moby deu lhe uma rápida olhada e umedeceu os lábios.
Fazia um calor infernal naquele lugar, mesmo assim senti minha espinha congelar com aquele olhar.
— Ela vai fazer o mesmo comigo, estou tão fodida — resmungou — Eu preferia tomar um tiro na cabeça de uma vez.
— Você está exagerando Sam, você consegue se defender, aposto. — nunca apostaria nisso.
— Ela senta nas pessoas.
— O que? — foi minha vez de engasgar. – Como assim, senta nas pessoas?
— Isso mesmo, ela senta na boca das garotas — Sam fungou — com aquela bocetona gigante!
— Jesus. – me pareceu um bom momento pra chama-lo.
— Ela só levanta quando goza, fica lá sufocando as coitadas até gozar — limpou o suor da testa com a manga — Se gozar...ela quase nunca goza, fica só lá sentada como uma galinha em cima de um ovo. Mata todas elas com aquele bocetão.

Fiquei sem palavras, de boca aberta esperando pra ver se alguma acabava pulando pra fora. Sam parecia imaginar seu futuro na boceta inchada e fedorenta de Moby Dick e pela cara que fez, não gostou do que viu.

— Sam
— Sim? — me levantou os olhos.
— Você é boa com essa língua ai?
Agarrou os cabelos com a mão e eu tive mais um relance de desespero em seus olhos.
— Vou morrer, não é?
— Vou fazer tudo que puder, boneca.

Eu não ia fazer tudo que podia, mas era melhor tentar acalma-la um pouco. Sammy era esperta e sabia demais, me despedi — tocando a mão dela através do vidro — e a deixei ali, branca como a neve que eu vendo.
Levantei e dei uma última olhada pra Moby Dick, era uma coisa realmente fascinante. Podia muito bem ser imortal, engoliria a morte quando ela chegasse, de foice e tudo. Nem se me fosse conveniente, eu nada poderia fazer por Sam.

Moby Dick e suas dobras gigantescas, suas pernas de barril e suas tetas do tamanho de Deus.
Moby Dick e sua grande xoxota assassina.
Eu deixo os monstros dentro do mar cinzento de concreto.




— Olha só, to sentindo cheiro de boceta.
— Cadê?
— Acabou de entrar, essa passou até perfume no grelo.
— Vitor seu filho da puta, não torce a cabeça igual o exorcista, o cara dela parece o Bruce Willis.
— Foda-se o Bruce Willis, velho careca de merda, o que acha Hank? — disse Vitor, limpando a sáliva que queria descer pelo queixo.
— Acho que ele faria um puta estrago na sua cara com uma katana. — falei mandando um longo gole de cerveja.
— Olhe discretamente, dá pra ver até a renda da calcinha dessa cachorra nessa saia.
— Que rabo! Sabe o que eu faria com um rabo desses, Johna?
— Sairia correndo, chorando.— rebateu Johna com um sorriso no rosto.
— Com sua mãe no bolso, seu fodido!

Levei uma mão até a testa e sequei o suor, maldita lei anti-fumo, cogitei a hipótese de acender um cigarro no meio do bar e afogar meus compatriotas na fumaça. Mas o olhar sinistro de um segurança que eu podia jurar que lia mentes me fez afastar esse pensamento no mesmo instante.

— Hank, você vai me pagar mais uma cerveja, não é? – disse Johna.
— Você vai me pagar um boquete não é? — rebati.
— Nem brinca com essas coisas com esse cara. — participou Vitor amassando os lábios na boca da garrafa, entre risos.

A porta automática se abriu num deslize de metal rangendo e John e seu olfato apurado não demoraram a entrar em alerta

— Nossa! Tatuagem no fim das costas! É outra piranha.
— Marca registrada das vadias. — Vitor falou acenando com a cabeça para mim.
Que merda de lugar, que merda de amigos, nenhum desses fodidos ia conseguir boceta nenhuma nos próximos 5 anos, e queriam me arrastar junto pro mesmo barco. Me levantei e fui até o caixa, os dois me seguiram. Johna pegou alguns chocolates, sem miséria, e jogou no balcão.

— Ele vai pagar — apontou pra mim.
— Eu vou matar você – eu disse e a balconista deu risada — É sério, pode ver no jornal amanhã: Johna Henrique. – falei pra mulher no balcão, que ria ainda mais. Vitor dividiu a maldita conta cheia de açucares comigo e dei mais umas três goladas demoradas até matar a cerveja.
— Tá na hora de ir, liga aí pro Tiago, não vou ficar a noite toda plantado nessa merda não.— falei.
— O cheiro de boceta te repeliu, é? – ouvi Johna brincar.
— Pois é, sou fiel a sua mãe, aquela danada. —devolvi animado, começando a sentir a cabeça leve com a cerveja.

Atravessei a porta mágica do bar das bocetas cheirosas, dei uma última olhada pro segurança mentalista pra ver se ele ia ter alguma objeção a meu tabaco mas ele só continuou olhando um ponto fixo na parede, mais perdido que eu.
— O Tiago falou que encontra a gente lá. – disse Vitor, coçando a cabeça. – Vamos indo logo antes que eu perca a coragem.
— Preguiçoso filho da mãe - respondi.

Acendi um cigarro e contei os segundos até Johna esticar a mão me pedindo um também. O fodido não tinha grana nem pra um misero cigarro.

— Opa! Eu quero!

Arranquei um cigarro do maço sem muito cuidado, deixando ele se amassar um pouquinho e joguei pra ele.
Andamos até a casa do Sandro, era o aniversário do cara e eu não via aquele sacana fazia muito tempo, Sandro era do tipo tranquilo, um maconheiro muito talentoso, em várias áreas, vagabundo de primeira, era pura classe. Toquei o interfone e esperei o zumbido da câmera virando pra pegar meu rosto

— Abra-te sésamo, filho da puta – falei, mostrando um dedo bem longo pro olho elétrico.

O portão deslizou pro lado e a falta de rostos conhecidos me deixou um pouco inquieto. Um freezer de cerveja bem grande acalmou minhas preocupações logo em seguida.
Me sentei com Johna, Vitor e Jessie, uma loira “fortinha” de olhos azuis e um puta tique nervoso no olho esquerdo, que tinha invadido nossa mesa, ela me parecia um grande rato raivoso muito bem nutrido.  Era uma das únicas mulheres que eu vi por ali. Jessie deslizou um baralho surrado na mesa e falou piscando o olho esquerdo centenas de vezes no mesmo segundo.  
  
— Vamos jogar truco agora.
— Beleza – disse Vitor, me servindo um copo bem cheio de cerveja, vi ele misturando uns dois dedos de Santa Dose no copo dele logo depois, tem gosto pra tudo nessa merda.
— Eu não sei jogar essa merda – falei.
— Eu ensino você – respondeu Jessie.
— Eu também não sei – rebateu Johna, olhando pra ela de um jeito muito estranho. Johna tinha uma namorada (que ele escondia de todo mundo) que me lembrava a Jennifer Anniston, ela só andava de saia curta, dava pra se perder naquele traseiro apertado nas calcinhas de renda (que ela parecia não se importar em deixar a mostra).
— Puta que pariu heim! – reclamou Jessie, eu já estava torcendo pra ela desistir dessa merda de jogo
— Ninguém joga poker nessa bosta não? – protestei.
— Vou arrancar seus dentes pra usar de ficha, sabichão. – vociferou pra mim em voz rouca. Jessie tinha uma voz que me lembrava o Pato Donald em alguns momentos.
— O que funcionar pra você, querida. – retruquei.

Ela me olhou com cara de quem diz “vai cheirar sua merda” e deu inicio a um longo monólogo  de regras de truco, uma sessão de flores, ínvidos e áses escrotos e até explicou o truco, aquela merda toda simplesmente me deslizou de um ouvido pro outro. Johna parecia bem mais interessado que eu, ó mentes simplórias.Dez minutos e dois cigarros depois de uma série de palavras estranhas e flores, a jogatina começou.

Eu não tinha nada bom, mesmo se tivesse, eu não sabia o que era bom.
— Invido
— 34
— Flor
— Hank, você é uma toupeira.
— Truco!
— Ok Donald.
— Invido
— Vão pra puta que pariu, não vou mais jogar essa merda – me levantei da cadeira levando a garrafa de cerveja e acendi mais um cigarro. O jogo acabou pra todo mundo lá também, Johna e Vitor me seguiram até algumas cadeiras no canto, Sandro tocava algum reggae que eu não conheço no violão e cantava (por sinal, cantava muito bem).  Eu não conhecia quase ninguém dali, e tinha uma boa porção de gente, todas assistindo ele tocar com mais outros dois caras e pedindo músicas o tempo todo, Sandro sorria o tempo inteiro.

Johna começou uma ladainha sobre uma grande ideia que teve, Vitor me parecia realmente interessado no falatório alcoolizado dele.

— É um site de relacionamentos, só que para cachorros.
— Caraca! – exclamou Vitor em sua voz de menininha (provavelmente estou exagerando).
— Hmmmm – tentei parecer interessado.
— Sim! É genial, por exemplo, eu tenho uma beagle fêmea e você tem um macho, podemos nos encontrar lá e fazer eles foderem, na garantia de bons genes e pedigree – olhou pra mim o tempo todo, eu devia ser um puta ator.
— Puta que pariu! – falei,  e falei sério.
— Fantástico cara! – disse Vitor, com os olhos brilhando. Vitor era tão magro que me lembrava um cervo doente, qual quer movimento do seu corpo era alerta e aterrorizado, a cabeça desse cara deve ser um inferno.

Johna continuou nos abençoando com o maravilhoso conhecimento funcional de seu site e seus benefícios para a sociedade canina em geral por mais um tempo.Uma fumaça clara cobriu nossas cabeças bem depressa, trazendo um cheiro forte de queimado. Um camarada muito estranho, careca e com uma bela pança de chopp tentava fazer alguma mágica ali na churrasqueira, o negocio começou a esfumaçar e fazer pessoas tossirem como se o diabo em pessoa estivesse ali, vomitando na cara de todo mundo, Sandro não parou de tocar.
Tiago chegou a tempo de ver a fumaça perdendo força e decaindo, mas ainda conseguiu boas risadas com a batalha do gordão na churrasqueira. Peguei mais uma cerveja e conversei com Tiago durante algum tempo.

— O que o Johna tá fazendo ali? – perguntou parecendo realmente intrigado.
— Tá montando guarda na carne, deve estar quase pronta. – falei, perdendo a fome com a visão de Johna sob a carne.

Tiago tirou um longo baseado de uma carteira de cigarros e acendeu. Ninguém pareceu se importar, nem mesmo o pai de Sandro, que assistia o filho tocar com uma expressão de orgulho no rosto, quase vibrante.

— Quer dar uns pegas? –  cuspindo uma tonelada de fumaça na minha cara.
— Acabou de me afogar nessa porra né, passa esse negocio pra cá. – dei alguns pegas, tenho certeza que não contei, devolvi o baseado a ele a tempo de ouvir um grito agudo vindo da mesa de carnes.O lugar me lembrava uma carcaça morta, lotada de abutres famintos ao redor, loucos por uma beliscada.
— FILHO DA PUTA! – Gritou um japonês de cabeça raspada de lá da carcaça.
— Porra bixo! Foi sem querer camarada! – respondeu Johna, ainda com a faca na mão.
— VOCÊ QUASE ME ARRANCOU UM DEDO SEU BOIOLÃO! – gritou o japonês, dando alguns passos nervosos a frente. Tiago começou a rir.
— Calma ai China, foi um acidente velho, eu não sou fã de carne de dedo.
— Eu vou enfiar um dedo é no seu cu, seu escroto! – berrou o japa, mais alto.
— Ele gosta! – gritou alguém da plateia de barriga cheia do Sandro, que não segurou uma risada.

O gordão da churrasqueira logo chegou e separou os dois, ninguém fodia com o churrasco dele, só ele. Uma moreninha bem trabalhada levou o china até um banheiro e pareceu cuidar do que sobrou do dedo dele, cuidou de um pouco mais também, se você me entende.
Tiago terminou o baseado e o jogou numa daquelas fontes de passarinho, cheias de água, seria um dia de sorte para os pássaros. Johna conseguiu algumas boas bocadas de carne e pareceu não ligar muito pros olhares assassinos do China.
Bebi mais umas três cervejas enquanto conversava com Tiago, esse realmente era um camarada fantástico, falava sem parar mas nunca era chato.  Não vi Johna nem Vitor até a hora em que eu e Tiago decidimos ir embora.

— To puto de fome, tá na hora de abrir fuga. – falou Tiago.
— Também acho, bora nessa. – respondeu Johna, que teve uma séria dificuldade pra passar pelo portão depois dessa frase.

Sandro era um cara ocupado demais pra se despedir, ele sabia disso e eu sabia disso, tudo na boa.
O caminho de volta sempre parece ser mais longo. Tiago e eu andamos um ao lado do outro com Vitor e Johna um pouco mais a frente. Já se passava das 2 da manhã e todos os bondosos e curiosos residentes daquela rua, amáveis vizinhos de Sandro estavam todos dormindo, o melhor que podiam, é claro, Johna tornou isso bem difícil pra eles.
Deu um chute fabuloso, do qual eu nunca gostaria de ser o alvo em uma porta de ferro que fez um barulho terrível e começou a tremer sem parar. Quando você anda pela noite, ao contrário do que se pensa, o perigo vem de quem dorme. Todos correram como se fosse o último dia de suas vidas de merda, menos eu. Continuei andando normalmente, não era bom em correr mas fiz questão de acelerar os passos quando percebi que se abria certa distancia entre nós.
Quando finalmente consegui alcançar eles, foi só pra ser forçado a correr. Johna, agora com a ajuda de Vitor, atirou uma pesada pedra contra uma enorme janela de vidro que se estilhaçou inteira. Dessa vez eu corri.
Isso continuou por mais algumas ruas até Johna se cansar dos gritos nervosos de Tiago a cada esquina.

— Para com isso seu filho da puta!
— Chega, desgraçado!
— Eu desisto desse cara. – esse ultimo, um pouco mais desanimado.

Johna então se quietou durante alguns minutos até achar um novo esporte, atirar garrafas de cerveja, e isso meus caros, era munição infinita nas ruas dessa cidade. Ele parecia tentar acertar mesmo um de nós, que apressamos o passo, só eu e Tiago. Até tentava adivinhar.

— Essa vaaai, na cabeça do Hank!
— Essa vai na orelhona de dumbo do Tiago, rebate ai desgraçado!

Por fim, achou uma placa de trânsito e cismou em arrancá-la do chão.
Eu não fiquei ali pra assistir, continuei andando com Tiago, me esforçando seriamente pra não pegar uma dessas garrafas do chão e rasgar o rabo de Johna.  Precisei parar pra mijar alguns metros depois e Tiago me deixou pra trás. Johna logo me alcançou, deixando Vitor um pouco mais atrás e começou a andar do meu lado, eu ainda tentava fechar a droga da braguilha.

— Sabe que eu posso te dar uma surra né Hank?
— Eu te levo junto comigo. – respondi.
— Ah, mas você ia apanhar tanto... – fechou um punho e socou a palma da mão algumas vezes.
Olhei pra ele de canto e continuei caminhando.
— Tudo bem, mas eu vou te deixar com danos cerebrais antes de morrer. – retruquei, olhando bem na cara dele.

Jonah era bem maior que eu e muito mais forte também, meu plano era lhe quebrar uma garrafa na cabeça e o plano acabava ai, aquilo era uma missão kamikaze.

— Porque você não vai dar a bundinha e me deixa em paz hein, Johna... – falei, tranquilo.

Ele riu e correu pra chutar mais uma porta, depois continuou andando normalmente até gritar pra todos.

— Aonde vamos comer?
— No Metralha’s, aquela maionese deles é sensacional. – respondeu Tiago, parecendo menos rabugento com esse assunto.
— Por mim tudo bem... Hank? – perguntou Vitor.
— Eu vou comer em casa.
— Foda-se você então. – retrucou Johna.

Mais cinquenta, sessenta metros no máximo e havia um ponto de táxi ali. Eu só precisava não matar Johna durante mais alguns passos e tudo ficaria ok.
Chegando mais perto olhei bem pra placa de táxi e não vi nenhum maldito taxista parado por lá, fechei os olhos, desolado, a caminhada até o próximo ponto era ainda mais longa e tortuosa com a imbecilidade de Johna.
Abri os olhos de novo e suspirei, um táxi dobrou a esquina e parou no ponto a minha frente, um sedan tímido e idoso.

— Puta que pariu, que sortudo de merda. – exclamou Vitor.
— É isso ai meus caros,que todos tomem em seus respectivos cús – me despedi, e fui sincero.
Abri a porta do táxi e olhei pra eles uma última vez.
— De 10 a 15 reais Hank, nada mais que isso. – me gritou Johna.

Mostrei um pomposo dedo médio pra ele e entrei no táxi.
Na manhã seguinte, me servi uma xícara de café preto e acendi um cigarro. Abri o jornal e logo na manchete deu pra ver a cara estampada dos três, Johna, Vitor e Tiago.
Um homem armado com um revolver entrou pela porta da frente do Metralha’s e descarregou a arma contra os três, várias vezes.As testemunhas do crime, que sobreviveram às balas perdidas, estavam completamente traumatizadas com o banho de sangue do Metralha’s.

E a foto não tinha ficado tão ruim.
Um cigarro nunca foi tão doce.